Nausicaä do Vale do Vento – Cuidem do planeta que nos deu Miyazaki!

Nausicaä do Vale do Vento – A atualíssima obra de Miyazaki!

A preocupação com os recursos naturais e o meio ambiente nunca estiveram tão em alta como nos últimos anos. Desmatamento, queimadas, inundações, rompimento de barragens, contaminação de rios e do solo, trágicos e também nefastos ‘acidentes’ que destroem a vida por onde passam. Vivemos momentos em que a preservação da natureza e o uso consciente dos recursos naturais tornam-se cada vez mais um diferencial na vida de todos nós.

Prezamos por empresas, pessoas comuns e líderes que reciclam, que reusam, que transformam. Prezamos por aqueles que se importam de fato com ‘onde estamos’ para que no futuro ainda haja um lugar para estarmos.

Entretanto é um erro achar que esse assunto é exclusivo de um grupo ou não deve ser amplamente debatido por todos. E engana-se quem pensa que esse tema não é incalculavelmente relevante em nossa amada sétima arte. Na verdade, grandes mestres do cinema já expressaram sua visão da necessidade do ser humano buscar meios mais eficientes de coexistir com o natural. Mostraram seu interesse pela evolução consciente e adequada. Representaram através de luz, movimento, som e da magia cinematográfica seu amor por nosso pálido pontinho azul.

 

Terra, também conhecida como planeta em que vivemos… (Foto via Wikipedia)

 

Sobre o filme

Estamos diante de uma obra que que já passou dos 35 anos. Porém não se engane, caro leitor. A temática do filme continua atualíssima, pois aqui veremos o antagonismo entre a capacidade destrutiva do ser humano e do potencial de ressurgimento da natureza, não importando quanto mal se propague sobre a terra. Poluição, exploração desenfreada, ganância, falta de empatia, medo. Tudo isso e muito mais numa trama que consegue tratar com incrível leveza tais pontos e nos orientar a repensarmos sobre a nossa responsabilidade e ligação com o planeta em que habitamos.

 

Esse é o jeito Hayao Miyazaki de contar uma história.

 

Não se deixe levar pelo trailer… Infelizmente ele não faz jus à grandeza dessa animação.

 

Falar sobre as obras desse aclamado diretor japonês é sempre algo encantador, dado o incalculável nível de beleza contido em suas criações. Com maestria e sensibilidade ímpares, somos por ele levados a um mundo onde o ser humano e a natureza ganham cores, vozes e sentimentos. Onde o comum se revela único. Um universo em que a vida se desdobra diante de nossos olhos em todas as suas infinitas nuances. Belas e singulares. Doces com um toque de amargor quando necessário.

 

Hayao Miyazaki  (Foto via Wikipedia)

 

Falemos, pois, deste clássico pertinente com o momento vivido por nós. Falemos da vida, da natureza. Falemos de Nausic!

 

 

Este, que não foi o primeiro trabalho do diretor, é considerado por muitos a base do que seriam os estúdios Ghibli. Miyazaki, criador de cenários belíssimos e de histórias cativantes, nos presenteou com A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado, Porco Rosso, Princesa Mononoke, Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar e Meu amigo Totoro – apenas para mencionar parte de sua vasta coletânea.

Em Nausicaä do Vale do Vento, de 1984, somos transportados para um futuro em grande parte desolador pois o planeta é retratado em um estado lastimável de destruição e caos. Estamos numa terra quase totalmente destruída, 1000 anos após o colapso da civilização industrial. Solo, rios, oceanos, o ar… Quase tudo perdido, contaminado pela poluição desenfreada resultante de uma antiga guerra – chamada de Os Sete Dias de Fogo. E por falar em guerra, ainda há uma em pleno desenrolar do filme, se desenvolvendo entre duas poderosas nações (Torumekia e Pejite). No meio delas encontramos o Vale do Vento, que nomeia a origem de Nausicaä, sua princesa.

A identidade visual dos reinos é marcante. O acinzentado céu poluído do primeiro, entrecortado pelas chamas das máquinas, aeronaves e máquinas; o tom arenoso, avermelhado e angustiante do deserto do segundo onde uma nação luta para não ser tragada pela poluição que se aproxima, bem como para não ser dominada pelos outros povos… E os calmantes céus azuis do Vale, bem como o suave verde das plantações que ali estão. O bucolismo dos moinhos de vento e da exploração consciente da natureza, numa relação de ‘nada além do limite’ fazem o pequeno reino cercado de guerra erguer-se como um oásis. Porém este pequeno paraíso será envolvido, querendo ou não, na guerra que se aproxima dali.

O vale do Vento encontra-se também cercado pelo chamado ‘Mar de Corrupção/Mar da Decadência’, uma floresta tóxica capaz de transformar qualquer lugar por onde se expande em um ambiente inóspito e selvagem, cujo ar é letal para os seres humanos e onde habitam insetos gigantescos de aparência pré-histórica e, muitas vezes, repulsivos ao primeiro contato.

Indo muito além das aparências, Nausic percorre parte desta floresta inabitável aos humanos em busca de recursos, muitos deles retirados das carcaças daqueles mesmos insetos. Nesse ponto já se demonstra algo único da princesa Nausicaä: Seu cuidado com a natureza. O modo como conversa com os ‘terríveis’ insetos, como os respeita. Isso nos revela que a personalidade da jovem é muito mais completa e cativante do que normalmente se esperaria de uma princesa nos moldes antigos.

E aqui se encontra uma característica fenomenal de Miyazaki. Suas heroínas. Estava esperando aquela princesa que apenas aguarda o resgate? Que sempre espera o felizes para sempre? Aqui não. Delicadeza e sensibilidade estão sem dúvida alguma presentes em seu modo de ver a relação homem x natureza… Porém nossa protagonista (ainda que seja possível dizer num sentido muito mais amplo que o planeta em si seria o protagonista desta história) é forte, destemida, sabendo muito bem impor sua autoridade quando necessário e comandando de maneira guerreira seus súditos – numa visão infinitamente mais igualitária, amorosa e fraternal se comparada aos representantes dos outros reinos presentes na narrativa.

Com relação à trilha sonora, esta é muito bem cadenciada. Teve como condutor o habilidoso Joe Hisaishi (seu trabalho primoroso pode ser conferido em alguns filmes já citados aqui, tais como A Viagem de Chihiro, Porco Rosso, O Castelo animado, Ponyo – bem como nos jogos Ni no Kuni: Wrath of the White Witch e também em Ni no Kuni II: Revenant Kingdom). A parceria entre Miyazaki e Hisaishi é garantia de uma atmosfera muitas vezes surreal e que irá encorporar inúmeras referências dos mais variados gêneros em sua composição e performance.

Nausicaä do Vale do Vento é mais do que uma história distópica sobre um planeta arruinado pela ganância e maldade humanas. É um alerta para todos nós sobre como podemos direta ou indiretamente afetar a natureza e nossas relações entre nações ao agirmos de modo desordenado, sem respeito à fauna, à flora, à vida e sem a exata noção de que todos fazemos parte de um cenário infinitamente maior do que supomos. É um filme que trata de esperança. Não aquela pueril e utópica, mas sim uma esperança que é fruto da ação, do sacrifício, da tomada de atitudes. Do acreditar em uma coexistência racional entre o ser humano e a natureza.

Nausicaä é uma obra-prima que traz alento.
É sobre pensarmos em nosso futuro, sobre respeitarmos o nosso planeta, sobre cuidarmos da nossa própria casa.

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